Brasil e Austrália. Países distantes, mas que se cumprimentam em muitas semelhanças: gigantismo continental, biodiversidade fascinante, regiões desérticas, charcos pantanosos e a convivência entre peculiaridades étnicas.
Quanto as diferenças, sabemos que a Austrália não faz parte do BRIC, não sonha com cadeira no Conselho de Segurança da ONU e nunca vai ganhar uma Copa do Mundo. Já o nosso Brasil consegue deixar alguns milhões sem saneamento, outros milhares sem energia elétrica e muitos filhos eclipsados pelo analfabetismo.
Brasil e Austrália, vitrines de exotismos, tão iguais em seus contrastes. E tão parceiros em uma troca surpreendente, capaz de esquentar o aperto de mão firmado por nações tão longínquas. Os australianos nos deram todas as possibilidades de uma árvore: o eucalipto. E nós, para tornarmos a Austrália ainda mais glorificada, lhe entregamos um animal: o sapo-cururu. A alma da Austrália cresce em nossas terras, palita nossa economia e perfuma nossas saunas. E o Brasil pula gordamente e samba num enorme estrago ambiental nas planícies da Oceania. Brasileiro é bom de bola, mas precisa aprender a trocar presentes.
Comprido caso de amor
As primeiras mudas de eucalipto aportaram no Brasil em 1868. Enquanto se espalhava pelo Sul e Sudeste, era utilizado como lenha para combustíveis de locomotivas, dormentes para trilhos, mourões de cercas, madeiramento de estações e vilas. Em meados do século passado, descobriram-se outras bênçãos – produção de celulose, moveis, chapas, placas, óleo e carvão vegetal.
Desde que fez ponta num pedaço de pau para afugentar o tigre de dente de sabre, o homem não consegue imaginar sua existência sem a madeira. E o eucalipto reforça esse caso de amor em Minas Gerais, estado que lidera a produção nacional. Recentemente, um projeto endossado pelo governo estadual, formulado pela Associação Mineira de Silvicultura e pelo Sindicato da Indústria do Ferro, pretende elevar os atuais 1,2 milhão de hectares para 3,8 milhões em 10 anos. Tal demanda seria forçada pela exportação de ferro-gusa para a China e pela indústria de celulose.
Nem tudo são flores nessas florestas cortadas, ainda crianças, aos sete anos. Muita gente acha que esses palitos gigantes podem ser vilões. Eles seriam responsáveis pelo excesso de consumo de água, que alteraria níveis de lençóis freáticos, pela contaminação do solo, devido ao uso de fertilizantes e defensivos agrícolas, e pelo empobrecimento biológico, com a substituição de matas nativas, como o cerrado e a Mata Atlântica. No caso de Minas Gerais, a desertificação do estado se aceleraria segundo ambientalistas.
Tais problemas já ganharam a antipatia do próprio setor florestal. Muitas empresas se comprometeram em buscar o desenvolvimento continuo de tecnologias voltadas para a melhoria das praticas de cultivo, com utilização de produtos menos agressivos ao homem. Outras medidas já teriam sido tomadas para suavizar os impactos sociais e os prejuízos a biodiversidade. A questão da camada de ozônio se soma as vantagens de eucaliptocultura – as plantações absorvem mais carbono durante seu crescimento do que liberam na produção do gusa. Ao que parece, o presente dos australianos ainda tem muito a contribuir para a manutenção do cotidiano dos brasileiros e para a fervura da nossa economia. Em tempo – Ficamos tão bons nisso, que exportamos para a Austrália, tecnologia de ponta e conhecimento cientifico sobre o presente que eles nos deram.
Presente venenoso
Em 1935, enviamos nossa contrapartida – o sapo das Américas desembarcou na Austrália com a missão de comer o inseto que dizimava as plantações de cana. Mas esse negócio de introdução de espécies, estrangeiras em ambientes estrangeiros pode bagunçar feio a cadeia ecológica.
Segundo recente publicação do biólogo Marcelo Leite, o Bufo Marinus cumpriu o dever de comer os tais besouros dos canaviais, porem partiu para cima de insetos que não tinham nada a ver com o peixe, digo, com o sapo. Alem dessa melança no cardápio de outros animais, o cururu se recusou a compor o menu de qualquer predador existente na Austrália. As toxinas liberadas por suas glândulas assassinam qualquer tentativa que queira fazer do sapo o prato principal. E nesse exato momento milhares de Cururus, migram para o Oeste da Austrália, pulando num rastro de esculhambação do equilíbrio ecológico do pais, que nos deu o eucalipto - e ainda – autoridades australianas proibiram o uso do dióxido de carbono no extermínio dos sapos, arma usada pelo exercito de voluntários, que já matou 500 mil cururus nos últimos cinco anos. Motivo – Os sapos precisariam morrer em condições mais humanitárias. O que tem de ambientalista cuspindo marimbondo por lá, pelo que as árvores e os répteis ensinam, afagos entre países, que podem resultar em sucessos ou tragédias. Mas ai vai o cuidado – Superpotências – Não impeçam nossos pulos para a liderança da economia mundial. Afinal o Brasil é o Cururu do Mundo!
Fonte: Paulo Lima Soraggi